O dia que fui burro como nunca antes na vida

Amigos, irmãos, colegas e companheiros.

Todos sabemos que eu sou um cara desastrado, meio atrapalhado, com pouca habilidade e que às vezes troco os pés pelas mãos.

Mas só às vezes.

Essa já tão falada destreza canhota acarreta em muitas trapalhadas e confusões por onde esse rapaz do barulho passa, muito mais que qualquer narrador da sessão da tarde poderia descrever.

Mas nessa última, eu consegui me envergonhar.

Era mais uma madrugada qualquer. Estava deitado na minha cama lendo um livro simplesmente formidável.

Fica, inclusive, a dica para vocês: PORNOPOPÉIA, do Reinaldo Moraes. Um trecho para ilustrar o nível da obra:

"A carne visgosa da lula se abrandou na minha mão. Fechei a torneira, virei a lulagina de boca pra baixo, deixando escoar toda a água, e entalei a desgraçada na minha rola ainda túrgida. Era a vagina solitária, a buceta sem mulher, pronta para ser instalada em qualquer fantasia. Num minuto minha parceira já se punha toda complacente e lânguida, e até mesmo coquete, a safada."

Hipnotizado por tamanho lirismo e capacidade necro-zoófila narrativa do amigo Reinaldo às 3h da manhã, percebi algo de peculiar enquanto lia meu Kobo (caso você more dentro de uma bolha numa caverna congelada nos confins do Himalaia, clique no link e descubra o que é um).

O imã da capa que eu uso soltava-se sempre que eu a fechava.

E fazia um "click-click" que estava me deixando desgraçado da minha cabeça.

Para pessoas normais isso seria "ok", ou no máximo um "amanhã eu resolvo". Mas não. Não pra mim.

Eu sou tão obsessivo, teimoso e controlador que simplesmente odeio quando qualquer coisa minha está fora de harmonia. Isso não significa necessariamente desarrumada (viu, mãe), mas quando não funciona 100%. Eu fico inquieto com qualquer interferência negativa em minha rotina e preciso resolver a qualquer custo.

Mesmo que seja às 3h da manhã.

E o desconforto daquele imã soltando e soltando e soltando e soltando ARGH ESTAVA ME TIRANDO DO SÉRIO, EU PRECISAVA fazer alguma coisa ou aquela anormalidade no tecido da realidade iria acabar com minha já frágil sanidade naquela hora de verdade (uma rima tripla só pra dar dinamismo).

Em uma rápida discussão com meus parcos neurônios, ficou acordado que usaria uma Super Bonder®  para colar o imã e resolver o problema. Coisa rápida, uma atividade tão simples que um labrador autista e retardado conseguiria fazer sem nenhuma dificuldade.

Peguei a cola e constatei que a mesma estava entupida. Ok. Sem problemas. Usei um grampo para tentar resolver o problema e... Não deu certo. Mesmo desentupida, a cola cretina ainda insistia em manter-se acomodada em seu receptáculo.

A solução óbvia seria "apertá-la bem forte até sair".

Então apertei.

Apertei.

Apeeeerteeeeeeeeeee-......... SBLOFT.

O tubo explodiu num mar de cola na minha mão.

Um pouco #chateado com o ocorrido, simplesmente segui o instinto de com a mão livre remover o tubo que estava colado na sua outra simétrica irmã.

Na tentativa, eu fiz o inimaginável: colei uma mão na outra. Com o tubo no meio, tal qual um cachorro-quente aonde minhas mãos eram o pão, o tubo a salsicha e a cola era o molho.

Já com as duas mãos cobertas desse líquido pegajoso sinistro entrelaçando o tubo estourado de Super Bonder, fiz a única coisa óbvia no momento: Tirei o tubo das mãos... com a boca.

Você acabou de pensar isso, mas calma que piora

Como aproximadamente 92% das coisas que eu faço, obviamente não deu certo e consegui a proeza de colar o tubo de cola na minha boca

Sim, eu era um adulto de 23 anos com um tubo de cola colado na língua e nos lábios, com os dentes já encharcados de Super Bonder e preocupadíssimo se o que estava escorrendo pela minha garganta poderia colar uma amígdala na outra e me asfixiar.

"Cara, arro que eu rô farrêndo merrda" - Pensei com o máximo de eloquência que minha língua repleta de cola permitia.

Ainda me sentindo um ator coadjuvante de uma esquete ruim d'Os Trapalhões, resolvi prever melhor meus movimentos e calculá-los de maneira que agredisse menos o meu já tão sofrido corpo.

Eu, primeiramente puxaria o tubo de cola da minha língua. Afinal, estava bem desconfortável.

Segundamente (eu sei que essa palavra não existe, então ME DEIXA), eu iria tirar o tubo de cola da minha mão simplesmente arreganhando-as, na esperança de que o mesmo se soltasse.

Nada muito difícil. Não havia física nuclear envolvida nem cálculos complicados. Se o labrador retardado e autista tentasse fazer isso de olhos vendados enquanto persegue uma barraquinha de cachorro quente, provavelmente conseguiria.

O feito exigia apenas destreza e coordenação motora, que pelo visto eram exatamente as qualidades que me faltavam pois na empreitada eu consegui a façanha de colar a mão na minha cara.

Pois é

Sim, eu colei minha mão direita no meu rosto. Como?

Sendo absurdamente burro, em proporções paquidérmicas, astronômicas, imensuráveis. Hinos serão escritos em homenagem à minha burrice, trovadores contarão histórias sobre ela, terei meu nome eternizado em todos os grimórios de ode à estupidez e serei a referência intergaláctica de Burrus Excelsior.

Cada vez mais surpreso com a escalada de desgraça e autoflagelação que eu estava alcançando com um ato tão simples quanto colar um imã, simplesmente me perdi em devaneios filosóficos e me vi numa reflexão que durou minutos longos demais.

"Como eu fiquei tão burro? Será que eu sempre fui burro e não percebi? Será que é normal colar a mão na cara com Super Bonder? Será que a burrice é tão natural quanto a luz do dia? Será que isso tudo é real ou apenas fantasia? Será que não seria melhor descolar a mão da minha cara pra continuar pensando?"

Após me conformar com minha extrema inabilidade com objetos colantes em geral, respirei fundo e me preparei para a depilação forçada que seria obrigado a fazer em meu rosto. Afinal, eu estava com uma barba respeitosa e colei a mão exatamente em cima da mesma.

Me programei para contar até 3 e puxar a mão. Quando minha contagem estava chegando em 52, decidi parar de ser covarde e acabar com o sofrimento de uma vez. VAPT, puxei minha mão num só golpe e, para zuar mais minha noite, fiquei com a mão peluda.

A dor foi tanta, mas tanta, que tive que abafar minha boca com a mão para não gritar e acordar minha casa inteira. Por sorte e, talvez, por pena do destino, eu tive reflexo suficiente para não utilizar a mão que ainda estava coberta de cola e piorar ainda mais a situação. Colar a mão na boca já seria considerado vandalismo.

Desventuras em séries à parte, após essa madrugada inacreditável tomei um banho pelando para tirar a cola que ainda estava no meu corpo. Óbvio que me queimei um pouco, mas...

... Isso tudo só aconteceu porque eu sou muito, mas muito burro.
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2 comentários

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Filipi Kamui
AUTHOR
26 de fevereiro de 2014 02:38 delete

cara, você tem que escrever mais, sdds do blog

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Maíra Mello
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26 de fevereiro de 2014 22:49 delete

Apenas chocada com o relato (mas confesso que dei umas risadas). Está de parabéns pelo feito!

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